Mês: Julho 2018

Porque é que as crianças crescem tanto nas “Férias grandes”?

Tempo, dedicação, disponibilidade, atenção, divertimento, lazer, brincadeira… alguns dos fenómenos chave que se proporcionam no período de férias entre as crianças e quem de mais valor tem para si – a FAMÍLIA.

A família é com quem a criança estabelece uma relação primordial de proximidade e que representa o pilar para a construção de um “Eu” individual e social.

Durante o ano é normal as famílias deixarem-se absorver pelo stress diário das rotinas e pelas exigências do trabalho, esquecendo-se facilmente de dedicar tempo a brincar com os seus filhos. Quando vão de férias, todo este cenário se altera. Deixa de existir o stress do dia a dia, sendo que o stress tem um grande impacto nas hormonas do crescimento; há maior flexibilidade nas regras e rotinas e o foco deixa de estar no trabalho, passando a estar na relação com os outros. As crianças sentem que os pais gostam de estar consigo e que lhes dão uma atenção total. Sentem-se mais livres de horários e aprendem a lidar com o “não ter nada organizado para fazer”!

Nas férias há tempo para brincar, tempo para falar, tempo para rir e tempo para “consolar” quando é preciso. É uma altura do ano em que os momentos positivos e de descontração são maiores do que os negativos, o que contribui para a saúde mental das crianças e ajuda a construir um “Eu” mais sólido, positivo e confiante (Margot Sunderland, “The science behind how holidays make your child happier and smarter” , The Telegraph, 1 fevereiro de 2017).

Através da brincadeira livre, em que os pais têm oportunidade de se envolver totalmente com os filhos, as crianças conseguem criar e explorar um mundo à sua maneira, vencendo os seus medos e fortalecendo a sua relação com os pais. O “Brincar” representa uma excelente maneira para os pais perceberem melhor a perspetiva dos seus filhos e aprenderem a comunicar melhor e de forma mais eficaz com eles (Kenneth R. Ginsburg, The Importance of Play in Promoting Healthy Child Development and Maintaining Strong Parent-Child Bonds, Janeiro 2007).

De facto, muitos pais não têm consciência dos profundos e longínquos benefícios que as férias, que passam com os seus filhos, têm no seu crescimento. Alguns investigadores falam-nos da melhoria na destreza física, na saúde mental das crianças, no crescimento em altura e peso (Timothy Olds, University of South Australia, 2017), assim como no desenvolvimento do cérebro durante as férias grandes em família. Fazer atividades diferentes, ir a sítios onde nunca foram e passarem por novas experiências sociais, cognitivas e sensoriais, contribuem para o desenvolvimento do lobo frontal do cérebro como, por exemplo, o enriquecimento das funções executivas, nomeadamente a autorregulação das emoções, atenção, concentração, planeamento e capacidade de aprendizagem (Margot Sunderland, 1 fevereiro de 2017).

Segundo Sunderland, este desenvolvimento mais rápido do cérebro ocorre porque nas férias se exercitam especificamente dois sistemas envolvidos na área límbica do cérebro (área responsável por várias funções, de que são exemplo emocionais e comportamentais), que ativam neurotransmissores responsáveis pela sensação de bem-estar, incluindo oxitocina e dopamina.

Jaak Panksepp (2016), neurocientista, explica que no período de férias em família ocorre uma interação dinâmica entre três sistemas emocionais, pertencentes às sete emoções primárias, que proporcionam um sentido de segurança na criança, de tal forma que estimulam zonas do cérebro a ponto de combater estados emocionais mais negativos, como a depressão: o “Seeking System” associado ao entusiasmo; “Care System” associado ao afeto e amor; e “Play System” associado à alegria (The science of emotions: Jaak Panksepp at TEDxRainier). Estes sistemas são como músculos: quanto mais forem usados, mais se tornam parte integrante da personalidade da criança.

Desta forma, ao ativar e fortalecer os “Play and Seeking Systems” do cérebro, nas férias em família, contribui-se para o desenvolvimento e maturação do cérebro na área do lobo frontal, responsável pelo funcionamento cognitivo e inteligência social, que perdurará pela vida inteira. (Panksepp, 2015; Burgdorf et al, 2010, cit in Sunderland).

As férias em família proporcionam, assim, uma maior harmonia, cooperação e entendimento entre os membros familiares. Fortalecem os laços afetivos e as bases para uma maior independência e segurança da criança para enfrentar o mundo à sua volta. Brincar livremente e passar tempo de qualidade com os filhos, ajuda, sem dúvida, as crianças a crescer e a melhorar as suas competências pessoais e sociais, ficando mais bem preparadas para o futuro!

Sofia Seabra Gomes
sofia.seabra.gomes@conforsaumen.com.pt

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