Mês: Novembro 2017

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Adolescência: Para onde é que eu Vou?

Crescer implica perder a tranquilidade, as certezas, a segurança, o sonho e a alegria de ser criança, para passar a viver na incerteza, na procura de si próprio, sonhando com um mundo adulto que, cada vez, parece mais distante e menos aliciante. A adolescência é assim um período em que o desenvolvimento e a mudança são uma constante no processo de independência travada pelo adolescente e que só termina quando esta é atingida. Há sempre uma certa tensão nesta conquista, o adolescente quer ser autónomo, ao mesmo tempo que os pais ainda não se deram conta que aquela criança está a pedir para entrar no seu mundo. Na maior parte das vezes este processo faz-se sem rutura com os pais. No entanto não deixam de existir movimentos sucessivos de afastamento e reaproximação, em que (desejavelmente) o afeto é mantido e a confiança reforçada. Sabe-se pois, que os laços de união fortes favorecem uma separação bem conseguida, contudo quando em criança a sua vida foi pontuada pela falta deste amor maternal/paternal ou quando a sua qualidade é discutível, pode surgir a psicopatologia.

A PROBLEMÁTICA DA ADOLESCÊNCIA

Todos temos conhecimento que a adolescência é uma fase do desenvolvimento caracterizada por bastante agitação, por intensos conflitos internos e por diferentes transformações, que conduzem frequentemente à tradução de uma grande labilidade emocional (instabilidade de humor) e relacional. É, realmente, o surgir das irrupções pulsionais que se intensificam, sobretudo pulsões sexuais e agressivas (organização psíquica dos instintos), que conduz o adolescente a um forte desejo de independência e afirmação pessoal face aos representantes edipianos. No entanto, barreiras reais da sua vida, como a dependência económica e até afetiva, obstaculizam este novo modo de sentir. Não sendo capaz de fazer frente a estes novos desafios e querendo de forma imediatista (característica da adolescência) ver realizados os seus desejos, o adolescente embarca em movimentos de contestação, revolta e oposição acompanhados por um aumento do potencial agressivo, muitas vezes traduzido em discussões acesas, de carácter filosófico, religioso, incitação provocadora, etc.

De facto, em pouco tempo, o adolescente encontra-se diante de sucessivos e simultâneos trabalhos de luto. Surgem alterações corporais que se vão manifestando e às quais tem de se adaptar, fazendo um reconhecimento do seu corpo e refazendo uma autoimagem corporal. À vontade de autonomia e afirmação juntam-se a procura da sua identidade que comporta confrontos, deflexão da agressividade e ansiedade. A adolescência é sem dúvida um emaranhado de afetos e emoções que invadem violentamente o ideal infantil, sem sequer se ter tempo para se preparar, pois os desafios multiplicam-se, quase diríamos, descontroladamente. Também é um período de sonhos, projetos e fantasia. Uma procura de novas conquistas, uma excitação pelo novo, uma oportunidade à criatividade.

Anterior a este período há um passado vivido, há uma passagem da criança à idade adulta, da dependência à autonomia, que com alguma resenha poderá envolver o momento da chamada “crise da adolescência”, com diferentes fases no processo psicológico.

MUDANÇAS FÍSICAS

A mudança começa essencialmente pelo exterior, visto que em pouco tempo, a criança vê o seu corpo alterado. Há uma transformação fisiológica da altura, do peso e das secreções hormonais sexuais. A puberdade apresenta-se como o palco das profundas modificações fisiológicas que têm importantes repercussões psicológicas tanto ao nível da realidade concreta quanto ao nível imaginário e simbólico.

A metáfora de A. Haim, citado por Braconnier e Marcelli (1989), representa bem este primeiro desafio: “O adolescente é um pouco como um cego que se move num meio cujas dimensões mudaram” (op. cit. p., 33). O adolescente observa-se frequentemente numa tentativa de se reconhecer no seu novo corpo, levanta dúvidas existenciais sobre si próprio e sobre o que os outros pensam de si, principalmente o grupo de pares e o parceiro que é investido como objeto de amor. Também podem surgir receios do tipo dismorfofóbico (adulteração da imagem corporal).

O aparecimento deste questionamento sobre o corpo e a busca de uma identidade própria, vem acompanhada de angústia que vai reativar as primeiras relações de objeto (relação do individuo com o mundo exterior, a partir de referencias ao mundo interno). São as relações de objeto precoces e a sua eventual satisfação que são aqui evocadas. Os fracassos, as carências graves, as faltas nestas relações, mas também as relações demasiado simbióticas representam outras tantas ameaças reatualizadas. Pelo contrário, a presença de boas relações de objeto precoces, de uma imagem interna de relação tranquilizadora e pacificadora, desenvolve no adolescente uma capacidade de sonho, de diálogos internos e, principalmente, uma certa tolerância ao sofrimento e à conflitualidade, que o novo corpo origina.

O adolescente sente necessidade de vigiar o corpo, de o controlar. Por isso está constantemente a ver-se ao espelho, que é um verdadeiro trabalho de reconhecimento da imagem de si. Este reconhecimento também é resultado das trocas mútuas entre a sua imagem e a dos outros.

MUDANÇAS PSICOLÓGICAS

Com a adolescência surge por um lado, a inevitável perda dos “objetos infantis”, perda do refúgio materno/paterno e um progressivo afastamento dos imagos parentais, e por outro, a descoberta de objetos de amor e ódio fora da família. O luto pelos objetos do passado é inevitável. A escolha de novos objetos de amor exteriores à família, pressupondo já a capacidade egóica de funcionar autonomamente dos pais, estaria portanto na estreita dependência do trabalho intrapsíquico dos vários lutos.

A já referida emergência pubertária vai afetar a relação que o adolescente tem consigo mas também a relação que estabelece com os pais. A “inocência” das relações que tinha com estes vai ser posta em causa. O adolescente necessita de desidealizar fantasmaticamente os pais. Ainda Braconnier e Marcelli (2000, p. 65), insistem em lembrar que “se um adolescente não pode tolerar estes momentos de sofrimento, em particular quando estes o reenviam para períodos de sofrimento da primeira infância (separações múltiplas, carência afetiva precoce…), corre então o risco de eliminar o mal-estar através de comportamentos do tipo de passagem ao ato e projeção agressiva. Se, em contrapartida, o adolescente tolera estes momentos de sofrimento, poderá integrá-los e ultrapassá-los nos comportamentos de reparação, de sublimação ou de criação”. Esta alteração das relações pais-filhos é difícil para ambos, visto que os pais também terão de alterar o tipo de relacionamento que até aí estabeleciam com os seus filhos. Torna-se então necessário aos adolescentes abandonar as fixações afetivas na família original, sem o que não será possível resolver o problema do amor na adolescência.

MUDANÇAS SOCIAIS

Tivemos oportunidade de ver que os pais já não podem fornecer ao adolescente os modelos, as satisfações, os prazeres que até então tinham podido proporcionar ao seu filho. O adolescente começa então a mostrar a necessidade de se afastar dos pais, mesmo quando à partida, e acima de tudo, se trata de uma distância ao nível da esfera simbólica. De facto, a tarefa da desidealização dos pais da infância, é considerada pela maioria dos autores como a parte mais difícil da separação adolescente. Este movimento psicológico de deceção que o adolescente sente relativamente aos pais, vai conduzir a esta necessidade de procurar fora do círculo familiar novas fontes de satisfação e de se sentirem amados e admirados por outros que não apenas os seus familiares. O sentimento de pertença a um grupo com quem se identificar e o sentimento de segurança e proximidade na relação de amizade, são complementos fundamentais para o desenvolvimento emocional saudável e consequente sentimento de bem-estar psicológico.

O “papel dos deslocamentos de interesses é essencial”, como afirmam Braconnier e Marcelli (2000, p. 66). “Eles permitem, de facto, estabelecer laços de socialização diversificados com os outros adultos mas também com os colegas. Permitem também investimentos sublimados (transformação de sentimentos inferiores ou instintos básicos em sentimentos ou instintos superiores): desportivos, culturais, artísticos, etc. O adolescente vai procurar novas experiências, novos saberes, que lhe vão permitir sentir, cada vez mais, prazer fora da relação familiar.

 

– Braconnier, A. & Marcelli, D. (1989). Psicopatologia do Adolescente. São Paulo: Ed. Masson.
– Braconnier, A. & Marcelli, D. (2000). As mil faces da Adolescência. Lisboa: Ed. Climepsi.

Sónia Garrucho

sonia.garrucho@conforsaumen.com.pt

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